03 November 2009

Sísifo III


28 October 2009

DIY II


21 October 2009

Lá e Aqui


Do alto da minha arrogância juvenil(!), mais aqui do que lá, não consigo não dizer: o Lula tem muito crédito. Aqui - de onde acompanho previsões econômicas, análises sociais, G8, G20 e agora a campanha vitoriosa para o Rio 2016 - ele manda muito bem. 

Sim, política no Brasil é um assunto dolorido. Corrupção ainda corrompe o dia-a-dia, desnutrição e falta de educação ainda resultam em desespero e violência. Mas o Brasil levou as Olimpíadas por um boa razão. Alguém lá em cima gosta da gente. Não, não o ser-supremo e brasileiro. Os (até agora) todo-poderosos governos europeus e estadunidense (palavrinha horrorosa). Eles querem ser nossos amigos. Tem boas razões (sempre) econômicas pra isso.

No dia-a-dia brasileiro as mudanças são poucas e insignificantes? Mas existem, ouço da boca (virtual) de vários brasileiros e leio nos jornais ingleses. E insignificantes pra quem? Para os quem tem um pouco mais de comida na mesa, trabalho, um eletrodoméstico novo? Não. Pra quem esperava mais e mais rápido do governo do PT imagino que sim. Mas quem olha de longe vê progresso. Aquele da bandeira. 

A classe média, tão desiludida em toda parte, é a principal agente de mudança que nós conhecemos. A classe média brasileira está acostumada a reclamar. E tem do que reclamar. Mas agora é hora de reconhecer que chegou a hora de também agir. E o primeiro passo é admitir que a carroça está andando. 

No hemisfério-norte-rico é hora de rever desejos consumistas – para produzir menos lixo e desinflacionar o custo dos alimentos no mundo - além de reconhecer a extensão da própria alienação social. No hemisfério-sul-classe-média é hora de aprender a respeitar filas, cumprir regras - mesmo as da burocracia, não beber quando vai dirigir, não dirigir no acostamento, não pedir para a empregada fazer mais do que foi combinado no primeiro dia, não agir como se falar português bem ou ter pele quase branca desse crédito para sequer pensamentos de superioridade. E ensinar isso aos filhos. Com gestos. E boa sorte. Pra nós todos.

18 October 2009

Domingo

Poema que aconteceu 
 
Nenhum desejo neste domingo  
nenhum problema nesta vida 
o mundo parou de repente  
os homens ficaram calados 
domingo sem fim nem começo. 

A mão que escreve este poema  
não sabe o que está escrevendo  
mas é possível que se soubesse 
nem ligasse.  

Carlos Drummond de Andrade  
31/10/1902 - 17/08/1987

11 October 2009

Depois de tê-los, como sabê-los?




07 October 2009

DIY

Do It Yourself. Faço. Mal. Isso aqui é a capital mundial do DIY. Vai além do preço da mão de obra. É parte da cultura.

Pintar o exterior da minha casa é um trabalho especializado o suficiente para eu poder contratar alguém pra fazer. Mas as letras não chegaram a tempo para que as meninas as colocassem na porta. Lá fui eu, de martelo e estopa em punho.


Mesmo que eu estivesse disposta a pagar um ser humano pra fazê-lo, não existe chamar alguém pra fazer o que você pode fazer por conta própria. Em três minutos.

O O ficou muito perto do olho mágico e o N um pouquinho torto. Suficiente pra não ficar perfeito. Like everything I do it myself.

03 October 2009

Chronos

Aos seis anos aprendi a ler e escrever; aos onze perdi meu padrasto; aos doze a Magdalena; aos quatorze descobri os homens; aos quinze a maconha; aos dezesseis trabalho; aos dezoito a fotografia; aos vinte e um conheci o amor eterno; aos vinte e dois o hedonismo; aos vinte e três o mundo; aos vinte e sete tive meu coração partido; aos trinta conheci a maternidade e com ela a culpa máxima; e então o amor no mundo real; aos trinta e três descobri a sociologia; aos trinta e quatro perdi meu pai; aos trinta e cinco descobri o vinho tinto; aos (quase) trinta e sete aprendi a me sentir confortável dentro da minha própria pele.

27 September 2009

Na prateleira




20 September 2009

Mudei de idéia

From a tiny book called House and Home II:

"The fellow that owns his own home is always just coming out of a hardware store."

Frank McKinney Hubbard

13 September 2009

Conforto

Na Inglaterra a vida é tranquila. Não existe tensão social (quase). O serviço público de saúde é exemplar. Acreditem em mim, não na Sarah Palin. O governo é liberal e se vive (ou pelo menos se tenta desesperadamente) de acordo com os princípios do secularismo. Liberdade de expressão é a norma. Londres é, arguably, a cidade mais cosmopolita do mundo.

Recentemente acusei - em English Maths - os ingleses de atitudes-com-raízes-em-imperialismo-e-racismo. Recebi uma tormenta - se não em números em intensidade - de comentários escritos e verbais. De ingleses honorários ou oficiais. Não é racista o mundo ocidental inteiro? Os brasileiros realmente acreditam que não são racistas, mas apenas(!) classistas? Se fosse verdade, seria isso realmente algo do qual se orgulhar?

É fácil viver aqui e reclamar da falta de sol. Todo o mundo faz isso, começando com os ingleses. É fácil viver no Brasil e reclamar da violência. Todo o mundo faz isso, começando com os brasileiros.

É fácil viver na Inglaterra, ser estrangeira, brasileira, cool e olhar os outros de cima e pensar: de onde eu venho nós temos sol, calor, calor humano, a comida é maravilhosa. As pessoas são espontâneas e lindas. A medicina é incrível (deixemos de fora o por-que-eu-posso, claro) e a alegria impera.

É fácil ir ao Brasil, ser estrangeira - ou pelo menos estranha - moradora da Inglaterra, chique, olhar os outros de cima e pensar: eu vivo em um país civilizado, sem violência nas ruas, onde eu posso comprar uma calça jeans bem cortada sem a implicação moral de gastar o correspondente a três meses de salário de alguém que mora não muito longe. Aí é só vestir a tal calça e me incluir no grupo de gente linda, talentosa e bem sucedida que adora saber que eu fiz um mestrado em Londres. Posso mencionar Bordieu, discutir Sontag e fingir que sei algo de Foucault. E no meio do caminho admitir que não faço idéia quem foi Cummings e nunca li Platão. Ou Freud.

O problema é que sempre chega a hora em que percebo que ser estrangeira envolve perda ou confusão de identidade. E que, nem tão no fundo, eu adoraria ter uma empregada - e - uma diarista. Que a tal calça bem cortada não garante estilo em lugar nenhum do mundo. Que os móveis da Ikea (que lotam minha casa) foram, potencialmente, feitos por trabalhadores explorados em alguma parte do mundo. Eles só moram mais longe. Que racismo, miséria e injustiça existem em todos os lugares e minha atitude perante o mundo é ingênua e egoísta.

A verdade é que sinto falta de médicos especialistas a disposição de um toque no telefone. Que aprendi a comer bem aqui. Que nunca vou manter uma discussão de igual pra igual com meus amigos intelectuais. Que não tenho disciplina para me manter linda como as brasileiras no Brasil fazem. E que ao mesmo tempo nunca vou me permitir orgulho de quaisquer imperfeições do meu corpo, que na era do Photoshop, são infindas. Nem lá nem aqui é decididamente um lugar confortável.

06 September 2009

Gente Grande

Segunda-feira começam as aulas da Lea. Segunda-feira, antes das dez tenho que estar na Rox. Ao meio dia no St John Hospice, no norte de Londres. Ainda não tenho um gravador. A tarde o Ben vem brincar. A janela do quarto tem que ser consertada. Marido trabalhando no país de Gales. Volta na sexta. Ou na quinta. Na terça tenho que sair de casa as sete e meia da manhã, mas ainda não sei pra onde. Um trem sai de Marylebone as nove e vinte. Na quarta volto a Londres, por quatro horas. A Lea vai brincar na Ella. Minha quinta ainda não foi confirmada - mas a Talia vem brincar. Troca a data da acupuntura. Sexta talvez tenha festa de aniversário de adulto, a noite. Sábado, domingo e nova segunda-feira em Londres. Na terça o marido vai para Los Angeles. Eu, de volta a Londres para o sábado e domingo trabalhando. Domingo tem festa de aniversário de criança. Prometi fazer o bolo. Esqueci. Desculpa. Toca o telefone de novo. Talvez não trabalhe no fim de semana. Talvez possa fazer o bolo afinal. Mando um texto na sexta. Na quarta tem workshop no Fabrica. Tinha esquecido.

31 August 2009

Ilhada

Os dias escorrem pelos dedos. Dos pés. Enquanto não encontro tempo para muito dentro do maravilhoso mundo do Facebook, os links oferecidos pelos amigos são os melhores de há muito. No jornal estão as mais interessantes matérias dos últimos dias, semanas, meses - as acumulo na mesa da sala. A grama da vizinha fica cada dia mais verde. Ela não tem galinhas. Nem eu.

A consciência destas impressões me catapultaram à outra: começo a gostar (cada vez mais) da minha casa, de Brighton, de Londres, da Inglaterra e de seus valores. Comprei passagem para ir visitar o Brasil. Prometi a mim e a muitos ir olhar de perto. Na hora de sair do limbo percebo que ele é um lugar confortável.

25 August 2009

72

JORFerlauto

97

JORFerlauto

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JORFerlauto

132

JORFerlauto

24 August 2009

Aniversário

Fotos: Juan Carlos Meza

Se perguntarem
digam que sim,
fumei meus dias.


JORFerlauto
11/07/1951 – 24/08/2007


O canceriano morreu de câncer. Cresceu e viveu Dedé, mas nos últimos anos adotou o nome de batismo: José Otávio. Assim morreu. José Otávio, poeta, jornalista, cronista. Meu pai.

Fumou todos os dias, dos 16 aos 56 anos. Não bebia. O matou um câncer no fígado - os pulmões intactos. Nos últimos dias o cigarro requeria muito esforço para manter na boca. Alguns eu mesma segurei para que ele pudesse fumar.

Os filhos todos vieram para perto. Um luxo, disse ele, com um sorriso fraquinho. Meu irmão e eu nos atiramos da Inglaterra para o Brasil para estar lá. Por ele e por nós mesmos. Somos quatro - ex-fumantes, não fumante e fumante. Todos fumávamos naqueles dias de companhia e vigília. Em homenagem. E desespero.

23 August 2009

Ervas, legumes, frutas e flores II

Agora visíveis. Agora com beterrabas. A grama vai ficando. Lembro sempre do meu pai. Plantas dão trabalho e prazer. Ele gostava dos dois.

17 August 2009

Sísifo II


14 August 2009

What do you do?

Há anos odeio o momento em que vem a pergunta: so, what do you do? Mmm... I am a photographer... and I'm doing an internship as a researcher... sociology. And I work as a Photoshop retoucher. What? I retouch images in Photoshop. Yeah... and I write a blog. And I’m a mum and a housewife. A esta altura da hierarquia das minhas atividades quem perguntou já foi buscar outro copo de vinho.

Pra quem leu até aqui pode parecer bastante, mas esse bastante não se traduz em uma carreira, nem em um salário regular e consequentemente não tem influência sobre a minha auto-estima.

Outro dia uma amiga me perguntou, na cara - do Skype: quando você vai voltar a trabalhar como fotógrafa? Errr... eu nunca parei... parou sim, você retoca imagens em Photoshop! Que digo eu? O critério é esse? O que paga as contas? Nunca paguei as contas como fotógrafa.

Já comprei roupas, livros, viagens e jantares, mas nunca paguei as contas. Mesmo antes de ser mãe, e me perder de vez no mundo-ocidental-profissional, o que pagava as contas era o Photoshop. E antes disso o marido. E depois disso o outro marido.

Esses dias ensaio desenvolver meu próprio trabalho, fotografando e escrevendo, traduzindo – enquanto não consigo cuspir ou vomitar - meus sentimentos. Um dia responderei: I’m an artist – ou - I’m a housewife. O efeito é parecido e dá pra dizer em um só suspiro.

04 August 2009

Estava escrito

Sísifo

31 July 2009

Piauí

Meu pai morreu e com ele se foi a Piauí. Ele as enviava pelo correio. Ou juntava uma pilha e esperava eu ir buscar. A última eu recolhi, toda orgulhosa – nós somos quatro filhos, mas as Piauí eram guardadas pra mim – em julho de 2007. Em agosto ele morreu. E eu voltei pra Inglaterra. Saboreio, aos poucos, as revistas que me restam. Na esperança que chegue uma nova pelo correio antes que eu acabe de ler todas.

29 July 2009

British Maths

I am half Brazilian, half Norwegian and whole English. Me diz Lea, minha filha, nascida na Inglaterra, de pai norueguês. Nascer na inglaterra não é o suficiente pra ter direito a passaporte britânico – é preciso provar que os pais estiveram aqui por mais de dois anos. Isso seria simples, mas os noruegueses só aceitam multiplas nacionalidades se as outras forem ‘automáticas’. Eu quero que minha filha seja brasileira (e italiana) como eu. Automaticamente. O pai dela quer que ela tenha nacionalidade norueguesa. Assim foi feito.

No dia-a-dia minha filha se torna cada dia mais inglesa, mas aos olhos dos ingleses ela sempre vai ser metade brasileira, metade norueguesa. Por muito tempo este conceito me intrigou e incomodou. Que direito tem eles de dizer que essa pequena inglesa com quem convivo não vai ser aceita como tal?

Depois de 10 anos nesta ilha - onde me sinto cada vez mais estrangeira - percebo que as referências e os valores que ensinamos a nossa filha são inevitavelmente conectados aos nossos, ao Brasil e a Noruega. Sem falar nas férias, que nos últimos 6 anos foram invariavelmente passadas nos dois países.

Mas o problema segue. As perguntas também. Não aceitar filhos de imigrantes como ingleses tem raízes em racismo e imperialismo. Se eu ficar aqui talvez um dia minha filha escolha jurar fidelidade a rainha (ou, entre a cruz e a espada, a bíblia) e se converta ao britanismo, adquirindo um passaporte que confirme esta escolha. Por enquanto, a convicção de que uma metade brasileira e outra metade norueguesa resultam em totalidade inglesa me faz sorrir e, confesso, acho difícil discordar.